O Segredo Do Córrego Azul
MarceloCordeirodeSousa
あらすじ
Prefácio Eu tinha quatorze anos quando percebi que minha vida era uma mentira. Não no sentido dramático de "fui adotado e ninguém me contou disso" ou "na verdade sou bruxo e vou para Hogwarts". Era pior. Era a percepção lenta, sufocante, de que nada de interessante jamais aconteceria comigo - como se o universo tivesse colocado minha existência no modo soneca e esquecido de me acordar. Moro em uma vila tão pequena que tem um cachorro famoso. Literalmente. O cachorro Farofa é mais conhecido que o prefeito. Ele late com entonação própria, escolhe sombra com precisão profissional e sabe a hora exata de aparecer nas fotos da quermesse. Esse é o nível de "nada acontece aqui" de que estou falando: o ápice do dia é quando o Farofa decide atravessar a praça. E então, numa tarde comum de verão - calor grudando na pele, cheiro de manga madura no quintal, o vento cansado - eu vi algo que não deveria existir. Não vou contar o que foi. Seria spoiler, e spoiler é crime. Mas vou dizer isto: mudou tudo. Não mudou a minha vila - ela continua pequena, as telhas continuam estalando, o Farofa continua famoso. Mudou a maneira como eu via a vila, como se alguém tivesse limpado a lente do mundo por dentro. Este não é um livro sobre quatro adolescentes numa vila que brilha. É um livro sobre você. Sobre aquela sensação de estar preso numa vida que parece menor do que os seus sonhos - como tentar guardar o mar num copo. Sobre amizade que nasce do medo, não apesar dele. Sobre descobrir que coragem não é ausência de terror: é fazer a coisa mesmo tremendo, com o joelho mole e o coração batendo alto o suficiente pra assustar os passarinhos. Vai ter gente que vai ler este livro e achar "bonitinho". Essas pessoas, coitadas, perderam a capacidade de se maravilhar - trocaram o espanto por boletos e chamaram isso de maturidade. Mas você - se está lendo este prefácio em vez de pular direto pra história - você ainda tem essa centelha. Essa parte de você que insiste em acreditar que existe mais. Que olha pro céu estrelado e sente uma coceira no peito - meio saudade de um lugar que nunca visitou, meio vontade de fazer perguntas que não cabem na escola. Este livro é pra essa parte de você. A parte que ainda não foi completamente domada por adultos dizendo "seja realista", "pare de sonhar acordado", "essas coisas não existem". (Spoiler: adultos mentem. Não por maldade - na maioria das vezes -, mas porque esqueceram como olhar de verdade.) Então aqui está o acordo: você lê este livro com o coração aberto. Em troca, prometo que, quando terminar, vai olhar pra rua onde mora - essa rua comum, entediante, com o mesmo poste e a mesma calçada - e vai ver diferente. Vai perceber que talvez esteja vivendo sobre camadas de histórias que ninguém se deu ao trabalho de descobrir. Que o mundo é muito mais estranho e muito mais maravilhoso do que alguém teve coragem de te contar. Não posso prometer que a água vai brilhar quando você olhar (embora... quem sabe?). Mas posso prometer isto: depois desta história, você nunca mais vai chamar de "comum" um lugar que ainda não aprendeu a ver. E isso é o tipo de magia que nenhuma varinha consegue fabricar. Agora pare de ler o prefácio e vá descobrir o que Nico viu naquela tarde - e leve um pouco de coragem. Certas coisas, no fim das contas, só acontecem pra quem ainda acredita. P.S.: Quando terminar de ler, vá até um córrego, rio, ou qualquer corpo d'água mais próximo. À noite, se possível. E apenas... olhe. Realmente olhe. Não pelo seu telefone. Me conte depois o que viu. Ou melhor - não conte. Guarde para você. Alguns segredos são melhores quando compartilhados apenas com as pessoas certas. P.P.S.: Se você mora em lugar onde não tem córrego, serve torneira e um copo. Água é água. E água sempre, sempre lembra.